domingo

O brechó

Já tem duas semanas que como pão com alguma coisa porque acabou o gás e pra variar, não tenho verba destinada ao bujão de gás, na verdade até tive, mas estabeleceu-se o seguinte drama: Se eu comprar o gás fico sem dinheiro pra comprar comida, então tive que escolher em comer pão mesmo, temporariamente.
À conselho de minha personal less money, separei algumas roupas mais antigas para vender para uma conhecida dela.
- Fui lá na semana passada e ela me garantiu que paga 80 reais por um casaco de lã, ela adora roupa de brechó, disse que eu sou chique e que quer se vestir igual a mim.
- Sério mesmo, ela trabalha com o que?
- Ela é capitã.
Juntei o que eu tinha de mais interessante, daquelas roupas que ficam guardadas no fundo da gaveta, no saco dentro do guarda roupa, inclusive um conjunto de roupa indiana, que a minha tia trouxe uma vez na roupa para doar e que eu cismei que ficaria bom pra mim, mas não ficou.
- Vai lá quando?
- Amanhã e você vai comigo.

No dia seguinte estava empolgadíssima com a possibilidade de vender algumas coisas para tal capitã.
Cheguei no lugar e achei tudo muito estranho, entramos nos fundos de uma casa lá no Arara, parecia um cortiço mesmo e fiquei pensando durante a entrada como realmente os policiais ganham pouco nesse país.
-Capitã e mora aqui, nesse lugar?
Entrei e ví a dona esticada num sofá, descabelada, a boca zebrada : dente sim - dente não e me espantei mais ainda com a situação quando olhei pro canto e tinham duas meninas de aproximadamente 13 anos enrolando um baseado que parecia mais um charuto cubano e sem pudor nenhum acenderam ali mesmo.
- Deus do céu, que lugar é esse?
- Ditinha, essa aqui é a minha amiga que trouxe as roupas pra você ver.
- Senta aqui querida, me mostra o que você tem.
Mostrei as roupas e ela adorou.
- Pago 90 reais por tudo, pode ser?
- Pode.
- Tá, mas faz o seguinte, passa aqui na segunda porque o meu gerente administrativo trabalhou até de manhã e ainda não me passou a verba.
Diante a situação e lugar eu não ia reclamar, você acha que iria? Claro que não.
Gerente administrativo, mas que diabos de capitã é essa?
Fui pro carro e sem exageros não estava me sentindo bem, náuseas, sei lá que ambiente era aquele que até baixou as minhas energias.
- Meu, quem é essa mulher, você não disse que ela era capitã?
- E é.
-Capitã do que?
- Do tráfico.

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