segunda-feira

Agora fudeu..

Esses dias chegando em casa ví a cena que me deixa mais em pânico ultimamente:
O carro da Bandeirante na minha porta.
- Putz Elaine, agora fudeu, olha lá, os caras atravessaram a rua, vão bater lá em casa.
- Será?
- É , olha lá.
Quando paramos o carro, os moços estavam batendo na casa da vizinha, eu travei, fiquei imóvel no carro, como se isso adiantasse alguma coisa mesmo.
- Não vai sair do carro?
- To com medo.
- Medo do que criatura?
- Eu vou sair, eles vão ver que o número que eles estão procurando é o daqui de casa e pronto..fudeu!
- Vai, desce logo, é na vizinha, não ta vendo?
Saí do carro rapidinho, pedindo a Deus que eles não me chamassem, afinal de contas eles fazem o corte por rua aqui, se estavam com a ordem de corte da vizinha, provavelmente estavam com a minha também.
- ô moça!
Eles me chamaram, meu coração gelou, as pernas tremeram e quase virei pra trás com as mãos pra cima.
- Pois não?
- A vizinha aqui, não fica de dia em casa?

Olha ela até fica, mas hoje ela saiu cedo, disse que ia resolver umas coisas na bandeirante mesmo.
- Ah é? Ela ia la?
- Ia sim.
- Beleza, obrigado então.
E eles entraram no carro e foram embora.
- Ô maluca , você não me falou que a vizinha nunca falou com você?
- Nunca falou mesmo.
É a comunidade solidária.

Fazendo bico.

Posso estar dura, mas toda sexta-feira eu faço o cabelo, escova e faço as unhas. Tudo isso porque agora eu faço um bico lá no salão de beleza, digamos assim que não é um bico convencional, a minha missão é arrumar encontros amorosos para o meu cabelereiro pela internet.
- Vamos na lan house comigo?
- Vamos.
E lá vou eu entrar no chat como Marcos Ativo e descolar um encontro. Com isso tenho aprendido muita coisa, 70% dos homens no chat querem sair com outro homem, a maioria homens casados e conhecidos na cidade. O mais interessante é que eles são diretos:
- E ai beleza cara? Tem local?
- Tenho.
- Pode ser agora?
- Pode.
- Qual tamanho?
- 18 cm
E aí que no máximo em 6 frases eles já marcaram encontro para aquele instante e a coisa rola assim mesmo, acho que homem é perfeito pra homem , eles são diretos, objetivos e seguros do que querem.
Nesse domingo o encontro foi tão bom que ao terminar, meu cabelereiro me ligou e marcou pra eu ir lá na quarta feira fazer make total:
Escova progressiva, tintura, luzes , sombrancelha de hena e massagem.
- Menina, que homem!!
- Percebi.

Íntima

Já sou íntima do moço da Sabesp.
- Moça, tô com ordem pra cortar a sua água.
- De novo? Mas eu paguei.
Mentira.
- Tem o comprovante aí?
- Então, paguei pela internet, tenho só os códigos.
- Faz o seguinte então, liga pra esse número aqui e passa os códigos pra ele dizendo que você pagou, aí eles dão baixa e eu não preciso cortar a sua água mas se eu ver que senhora não ligou, eu volto e corto.
Fiquei me perguntando:- Por que é que ele foi me contar isso?
Liguei pra lá e dei baixa na conta e o moço não voltou mais.
Mas isso acontece constantemente, claro que depois de um tempo eles percebem que você não pagou a conta e eles voltam de novo, mas eu ganho tempo e tempo é uma preciosidade pra quem está na dureza.
Esses dias eu estava com o saco cheio, tinha sido um dia complicado, afinal de contas fugir de cobrador e dar nó em pingo d'água cansa demais, liguei pra um amigo e combinamos de ir num boteco de bairro, onde a cerveja não sai por mais de R$ 3,00. Chegando lá, encontro o moço da sabesp, o mesmo de sempre, sentado numa mesa no canto ainda com a roupa do trabalho e também cansado.
- Opa, tudo bem?
- Bem, respondeu ele.
Passei e sentei no outro canto, vinte minutos depois ele se levantou , foi no carro, pegou a prancheta dele e veio na minha direção.
- Seguinte, amanha a primeira casa é a sua.
- Sério?
- Sério, faz o seguinte, vai ligando pro 0800 porque assim eu nem preciso te acordar.
- Tempos difícieis.
- Eu sei.
É a comunidade solidária.

domingo

Papel higiênico.

Acabou o papel e eu não tenho verbas para esse item, ultimamente a verba tem sido direcionada para o pão e miojo, já que descobri que é possível fazer macarrão instântaneo no microondas, então agora consigo variar a alimentação já que estamos ainda sem gás.
Contando isso para a minha personal less money, ela me contou que tem uma conhecida que quando acontece isso, pega emprestado papel higiênico de bares, aí eu me pergunto:
- Por que é que as pessoas me contam isso?
Quando saí a noite, fui preparada para o grande golpe higiênico, saí com uma bolsinha maior, que caberia pelo menos meio rolo, o suficiente para 2 dias, até eu descolar a verba para o papel e nessa noite eu estava sem grana mesmo, então eu nem precisaria abrir a bolsa, quem me convidou que pague.
Quando fui ao banheiro, o cenário era perfeito, alguém tinha derrubado o porta papel de enxugar a mão no chão e estava aberto, os papeis todos bonitinhos, dobradinhos, eu nem precisaria pegar meio rolo de papel higiênico , o papel estava me esperando, eu sei.
Coloquei na bolsinha o equivalente há umas 60 folhas de papel dobradinhas e minha bolsa ficou até bonitinha, estava meio murcha e se por acaso eu esquecesse e abrisse na frente de alguém poderia dizer que era enchimento.
Depois pintou um arrependimento, do jeito que é essa cidade onde qualquer acontecimento as pessoas apelidam as outras fiquei com medo de ser descoberta pela minha empreitada, já pensou se pinta um flagrante?Eu ia ser chamada de Maria cu sujo, não arrisquei e fui embora.

O brechó

Já tem duas semanas que como pão com alguma coisa porque acabou o gás e pra variar, não tenho verba destinada ao bujão de gás, na verdade até tive, mas estabeleceu-se o seguinte drama: Se eu comprar o gás fico sem dinheiro pra comprar comida, então tive que escolher em comer pão mesmo, temporariamente.
À conselho de minha personal less money, separei algumas roupas mais antigas para vender para uma conhecida dela.
- Fui lá na semana passada e ela me garantiu que paga 80 reais por um casaco de lã, ela adora roupa de brechó, disse que eu sou chique e que quer se vestir igual a mim.
- Sério mesmo, ela trabalha com o que?
- Ela é capitã.
Juntei o que eu tinha de mais interessante, daquelas roupas que ficam guardadas no fundo da gaveta, no saco dentro do guarda roupa, inclusive um conjunto de roupa indiana, que a minha tia trouxe uma vez na roupa para doar e que eu cismei que ficaria bom pra mim, mas não ficou.
- Vai lá quando?
- Amanhã e você vai comigo.

No dia seguinte estava empolgadíssima com a possibilidade de vender algumas coisas para tal capitã.
Cheguei no lugar e achei tudo muito estranho, entramos nos fundos de uma casa lá no Arara, parecia um cortiço mesmo e fiquei pensando durante a entrada como realmente os policiais ganham pouco nesse país.
-Capitã e mora aqui, nesse lugar?
Entrei e ví a dona esticada num sofá, descabelada, a boca zebrada : dente sim - dente não e me espantei mais ainda com a situação quando olhei pro canto e tinham duas meninas de aproximadamente 13 anos enrolando um baseado que parecia mais um charuto cubano e sem pudor nenhum acenderam ali mesmo.
- Deus do céu, que lugar é esse?
- Ditinha, essa aqui é a minha amiga que trouxe as roupas pra você ver.
- Senta aqui querida, me mostra o que você tem.
Mostrei as roupas e ela adorou.
- Pago 90 reais por tudo, pode ser?
- Pode.
- Tá, mas faz o seguinte, passa aqui na segunda porque o meu gerente administrativo trabalhou até de manhã e ainda não me passou a verba.
Diante a situação e lugar eu não ia reclamar, você acha que iria? Claro que não.
Gerente administrativo, mas que diabos de capitã é essa?
Fui pro carro e sem exageros não estava me sentindo bem, náuseas, sei lá que ambiente era aquele que até baixou as minhas energias.
- Meu, quem é essa mulher, você não disse que ela era capitã?
- E é.
-Capitã do que?
- Do tráfico.

sexta-feira

Espumas..

Acontece que acabou o sabão em pó e junto com ele as minhas roupas limpas, final de semana chegando e o valor de uma caixa de sabão em pó é um absurdo de caro.
Fico pensando nessas coisas hoje em dia, antes eu comprava e nem me procupava com o valor, porque eu não tinha que escolher entre um sabão em pó e uma cerveja, hoje em dia essa é a minha grande preocupação, é a minha unidade de medida, messo tudo em cerveja. 1 kilo de frango por exemplo, equivale a uma cerveja e meia num bar, à uma cerveja em outro e à três cervejas no mercado, mas beber em casa não tem graça nenhuma.
Mas como eu ia dizendo, acabou o sabão em pó e eu estava sem verba destinada ao sabão, então peguei a única coisa que espumava nessa casa .
Coloquei as roupas na máquina e acidentalmente foi-se o vidro inteiro pra dentro da máquina.

Enchi de água e coloquei pra bater a roupa, 15 minutos depois saí no quintal e ví uma montanha de sabão por cima da máquina aquilo tudo espumando pra fora, os cachorros latindo achando que era o monstro do sabão e meu pai se perguntando o que eu tinha feito pra espumar tanto a roupa. Claro que não falei.

- Não sei, acho que coloquei sabão demais.
- Mas tá perfumado.
- Nem to sentindo.
- Porra, você usou meu shampoo pra lavar roupa?
- Depois eu compro outro.
- Duvido.
Eu também duvido, com essa customização de gastos a última coisa que vou pensar na vida é comprar um novo shampoo pro meu pai que deve custar aproximadamente 2 cervejas ou 1 menta e meia.
Depois de passar a roupa umas 3 vezes na máquina pra tirar o sabão percebi que as roupas ficaram mais perfumadas que nunca, mas não necessariamente limpas, shampoo não tira manchas.
Vivendo e aprendendo.

Reunião das duras e associadas.

As vezes a Elaine vem aqui e me chama na porta, quando é assim eu já sei que é pra contar da dureza dela de cada dia, o bom é que aprendo que não sou a única dura da vez.
Mas o que me faz entendê-la e não criticá-la pela dureza temporária é que somos parecidas, nascidas no mesmo dia e de família importante, o que nos vamgloria perante à Ditinha, que é da Silva, mulher de traficante, mas tem dinheiro no bolso.

A nossa afinidade está no fato que, a conta de água pode estar vencida, mas a saída do final de semana é sagrada.
Esses dias ela veio aqui em casa dizer que precisava de alguém para religar a luz dela que foi cortada, veio no lugar certo, o que mais sei fazer nessa vida é gambiarra no relógio da luz , nem ela acreditou que eu sabia, mas isso é muito fácil, difícil mesmo foi fazer o que ela fez da outra vez.
Cortaram a luz no poste , então ela pegou uma corda, amarrou duas pedras em cada lado, e jogou no fio elétrico da rua, conseguiu fazer um apagão na rua toda, ligou pra Bandeirantes, dizendo que tinha um fio na rua solto e que precisava ser arrumado, como toda boa cara de pau, sabemos que os que arrumam a luz, não são os mesmos que cortam, então o pessoal veio e arrumou os fios arrebentados, inclusive o dela que estava cortado, ficou 6 meses com essa gambiarra.
A vida é boa demais para nos estressarmos a toa, quem tem criatividade, tem tudo.